Figura 1. Esquema dos principais arcos de conectividade submarina e terrestre no Nordeste, com hubs em Salvador, Recife e Fortaleza.

Esta é a terceira edição da nossa série trimestral sobre infraestrutura digital no Nordeste. Voltamos à mesma pergunta das edições anteriores: a região está de fato melhor servida, ou apenas mais visível? A resposta, depois de mais um trimestre de dados, continua matizada — mas inclina-se, com cuidado, para o lado otimista.

De onde vêm os dados

Usamos a pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), os indicadores de tráfego divulgados por pontos de troca de tráfego na região e entrevistas com doze provedores regionais de pequeno e médio porte. Quando há divergência entre fontes, priorizamos o número mais conservador e indicamos a discrepância em nota.

Salvador: a consolidação do hub

A capital baiana manteve o ritmo de investimento em data centers e pontos de presença. O dado mais notável é a redução da latência para servidores hosted localmente: passou de patamares próximos a 25 ms, em 2023, para algo em torno de 9 ms neste trimestre, na média das medições. É uma queda significativa, e explica por que provedores regionais conseguem competir em qualidade com servições sediados em São Paulo.

A latência deixou de ser o argumento de venda. Agora o argumento é suporte em português e proximidade — mas tecnicamente, está parelho.

Recife: Porto Digital e o efeito aglomeração

Recife continua atraindo empresas de software para o entorno do Porto Digital. O efeito mais interessante, porém, não é o número de empresas — que cresce, mas devagar — e sim a mão de obra qualificada que começa a permanecer na cidade. Em entrevistas, fundadores relatam que até recentemente o talento formado no CIn (Centro de Informática da UFPE) migrava para São Paulo. Esse fluxo segue, mas afinou.

Fortaleza: o caso do interior

O dado cearense mais relevante não está na capital. Está em municípios médios do interior, onde provedores regionais conseguiram estender fibra óptica até zonas rurais com subsídio de programa federal. A cobertura declarada subiu, e os usuários efetivos também — mas a qualidade da conexão segue instável. Há acesso, nem sempre há estabilidade.

Onde o gargalo permanece

  • Última milha em áreas de baixa densidade. A fibra chega ao município, não chega à casa.
  • Energia. Em mais de um provedor ouvimos que a intermitência elétrica é problema maior do que a conectividade.
  • Capacitação local. Há infraestrutura física, falta quem opere equipamento de rede em nível avançado.

Comparando com os trimestres anteriores

Em relação à primeira edição da série, há três mudanças mensuráveis. Primeiro, o volume de tráfego regional cresceu acima da média nacional. Segundo, o número de pontos de troca na região aumentou. Terceiro, a participação do Nordeste no tráfego doméstico total subiu discretamente. Nenhum desses dados, isolado, prova uma transformação. Juntos, formam uma tendência.

Sobre o autor

Dr. Gustavo Nery coordena a série trimestral de infraestrutura desde a primeira edição, em agosto de 2025.

Notas. Os valores de latência são médias simples das medições declaradas. Não incluímos leituras de provedores que recusaram compartilhar dados brutos.

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