Figura 1. Soma de rodadas identificadas em três bases públicas, em valores nominais. Linha sólida: interior paulista. Linha tracejada: média nacional fora do eixo SP-RJ.
Durante muito tempo, falar de venture capital no Brasil significou falar de São Paulo capital e, em segundo plano, do Rio de Janeiro. Era para lá que o dinheiro chegava primeiro, era de lá que saíam as rodadas maiores. O dado deste relatório, porém, aponta para uma mudança que já não é marginal: entre 2023 e o primeiro trimestre de 2026, a participação do interior paulista no total de rodadas identificadas subiu de 6% para algo entre 13% e 15%, dependendo do critério adotado.
Não é um número gigantesco. Mas é o dobro do que tínhamos há três anos — e é consistente entre três bases diferentes que cruzamos. Mais relevante que o tamanho é o formato: o dinheiro não está apenas chegando, está ficando.
O método, em poucas palavras
Cruzamos três fontes públicas: o ranking oficial de startups mantido pelo governo do estado, os registros de aumento de capital nos cartórios de Campinas, Ribeirão Preto e São Carlos, e uma base aberta de anúncios de rodadas mantenida por uma associação de ex-investidores anjo. Sempre que um nome aparecia em mais de uma fonte, considerávamos a rodada confirmada. Os casos duvidosos ficam de fora do gráfico principal e entram apenas em nota de rodapé.
O dado mais útil não é o volume total: é a proporção de empresas que, depois da rodada, seguiu com sede no município de origem. Em Campinas, essa proporção passou de 71% para 84%.
Os três municípios em foco
Campinas concentra o maior volume absoluto. Não surpreende, dado o ecossistema ao redor da Unicamp e do parques tecnológicos. O que surpreende é a composição: até 2023, a maioria das rodadas ia para software corporativo; agora, hardware e biotecnologia respondem por parcela semelhante. Há uma diversificação que o volume por si só não mostra.
Ribeirão Preto tem o crescimento mais rápido, partindo de uma base pequena. As rodadas são modestas em valor, mas frequentes — característica típica de um ecossistema que se estrutura em torno de agronegócio e saúde. Três das cinco maiores rodadas do ano passado na cidade vieram de startups conectadas ao setor sucroalcooleiro, o que faz sentido dado o perfil econômico da região.
São Carlos é o caso mais interessante para quem pensa longo prazo. Com pouco mais de 250 mil habitantes, tem densidade de pesquisadores por mil habitantes comparável à de cidades maiores. O que faltava era escala de negócio — e o dado sugere que ela começa a chegar, em especial em robótica aplicada e materiais.
O que isso significa — e o que não significa
Significa que o interior paulista deixou de ser apenas sede de filiais operacionais e passou a ser sede de decisões. Há um efeito de presença: quando a sede fica na cidade, o recrutamento, a tributação e a relação com universidades locais mudam de natureza. Não significa, porém, que estamos diante de uma “nova São Paulo”. O volume absoluto segue modesto e a maior parte do capital de risco nacional ainda pousa na capital.
Significa também que vale a pena olhar para o interior com método próprio, e não apenas como subproduto da pauta paulistana. Foi o que tentamos fazer aqui.
Pontos de atenção
- As bases públicas subnotificam rodadas pequenas; tendemos a estar para baixo, não para cima.
- O critério “sede no município” não captura empresas que abriram filial local sem mudar a razão social.
- O recorte é paulista. Outras regiões — Sul, Nordeste — serão tratadas em relatórios próprios.
Notas e atualizações. 18 de junho de 2026: corrigimos o total de rodadas identificadas em Ribeirão Preto (antes 22, agora 19, após revisão de duplicatas). O gráfico e a conclusão não mudam.
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