Figura 1. Percentual de PMEs entrevistadas que declararam ao menos um uso produtivo de ferramenta de IA. Base: 38 empresas, Sudeste e Sul, abril a maio de 2026.

Toda reportagem sobre inteligência artificial começa com uma frase grande sobre revolução. Esta não. Durante dez semanas conversamos com 38 pequenas e médias empresas — indústria, varejo, serviços — em Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. O que ouvimos é mais modesto, mais confuso e, sobretudo, mais útil do que a narrativa dominante.

O que as empresas estão, de fato, fazendo

A maior parte das iniciativas se concentra em três frentes, e nenhuma delas é glamourosa. A primeira é atendimento ao cliente: chatbots que respondem perguntas frequentes e encaminham o restante a humanos. A segunda é resumo e triagem de documentos, especialmente em escritórios de contabilidade e advocacia de pequeno porte. A terceira é tradução e revisão de textos comerciais.

O que quase ninguém está fazendo é treinar modelos próprios. Quando perguntamos, apenas três das 38 empresas afirmaram ter sequer considerado a hipótese. O custo computacional, a escassez de talentos e a incerteza sobre retorno falam mais alto.

“A gente não tem cientista de dados. A gente tem um sobrinho que entende de planilha.” — dono de uma gráfica em Curitiba, em entrevista.

Os números reais, contra a expectativa

Dos entrevistados, 26 afirmaram usar alguma ferramenta de IA — mas somente 9 afirmaram medir o resultado. E desse grupo reduzido, 6 disseram que o ganho de produtividade existe, mas é menor do que o prometido pelo fornecedor. Esse descompasso entre expectativa e resultado é, talvez, o achado mais importante do relatório.

O motivo mais citado para continuar usando mesmo com ganho modesto não é eficiência: é medo de ficar para trás. As empresas adotam por pressão simbólica, não por cálculo de retorno.

Onde a adoção esbarra

  • Dados desorganizados. Muitas PMEs não conseguem sequer alimentar a ferramenta porque seus sistemas internos estão em planilhas dispersas.
  • Preocupação com confidencialidade. Empresas de advocacia e contabilidade temem enviar dados sensíveis a serviços em nuvem.
  • Mão de obra. Há escassez de profissionais capazes de implementar, e não apenas de operar.

A distinção que ninguém faz

Os relatórios de mercado costumam somar, numa mesma categoria, “usar um assistente de escrita” e “construir um sistema autônomo de decisão”. São coisas muito diferentes. O primeiro é barato, rápido e reversível. O segundo é caro, lento e difícil de desfazer. Quando a imprensa anuncia que “87% das empresas usam IA”, mistura os dois níveis e cria uma impressão falsa de maturidade.

O que este relatório mostra é que, no nível do uso trivial, a adoção é ampla e cresce. No nível do uso estrutural — aquele que muda o modelo de negócio — a adoção é rara, cara e concentrada em empresas maiores.

O que levar daqui

Para quem formula política pública: o gargalo não é tecnologia, é dados. Apoiar a digitalização básica terá mais efeito sobre a adoção futura de IA do que subsidiar acesso a modelos.

Para quem investe: o espaço interessante talvez não esteja nos fornecedores de modelo, mas nas empresas que organizam dados das PMEs. Para quem empreende: o concorrente real não é quem tem IA, é quem tem os dados em ordem para usá-la.

Sobre a autora

Helena Moura é analista do Zenith Brasil, responsável pela conferência de números e pelas entrevistas de campo. Mestre em Estatística pela Unicamp.

Notas. As entrevistas foram presenciais e por videochamada, com duração média de 50 minutos. Os nomes das empresas foram mantidos confidenciais a pedido dos entrevistados.

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